Mindfulness - O que verdadeiramente é
Hoje em dia, se estivermos atentos aos desenvolvimentos sobre saúde mental, ouvimos falar de mindfulness com bastante frequência. Mindfulness tem imensos benefícios (mentais e físicos) e por isso aparece associado a diversas atividades, desde relaxamento a gestão de empresas. Porém, aqui só iremos retratar o mindfulness "original", aquele cuja prática foi estudada e validade pela psicologia e pela neurociência como eficaz e eficiente.
No ponto 1 vamos explorar um pouco das origens de mindfulness, depois abordamos algumas definições famosas e finalizamos com uma definição de teor prático. No ponto 2 relatamos a eficácia do mindfulness, como estudado na investigação científica. Finalmente, no ponto 3 apresento um curto livro que contém tudo o que precisa de saber sobre mindfulness, de uma perspetiva teórica e prática.
1. O que é Mindfulness
Mindfulness é uma palavra inventada por Thomas William Rhys Davids (~1910), um linguista que estudou as linguagens antigas do Budismo. A palavra mindfulness surgiu da expressão "being mindful" que em português significa "estar ciente (de algo)". Em português, Mindfulness é traduzido como Atenção Plena, não consegui descobrir quem cunhou este termo, mas na minha opinião é uma tradução infeliz, pois "atenção plena" não só falha em captar o significado total da expressão inglesa "being mindful", como já o próprio termo inglês "mindfulness" não expressava a totalidade do que a prática de mindfulness realmente é.
Mindfulness origina de práticas budistas. Nos ensinamentos de Buda mindfulness é referido no seu termo original "sati" (na linguagem Pali) ou "smriti" (em linguagem Sanscrito), ambas línguas antigas. Thomas Davids, no estudo dessas línguas desenvolveu e cunhou o termo mindfulness para traduzir sati / smriti. Não são conhecidas as razões da escolha desse termo, mas já existiam traduções anteriores, embora mais extensas.
Monier Williams (1872), traduziu a palavra smriti como podendo ter uma série de significados: lembrar, recordar, ter em mente, pensar em, pensar sobre, estar consciente de.
Já Childers (1875) traduziu a palavra sati como um estado de mente ativo, fixar a mente nalgum objeto, atenção, pensamento, reflexão e consciência.
Considerando estas traduções, a expressão "estar ciente de algo" até aparenta ser uma boa tradução de sati /smriti. Conseguimos até perceber que mindfulness é de certa forma uma palavra apropriada. Todavia, traduzir estas palavras no seu sentido literal, nem sempre nos ajuda a ter uma boa imagem do que mindfulness realmente é.
Mindfulness é o nome de uma variedade de práticas que são possíveis através do desenvolvimento de uma capacidade humana e inata. O desenvolvimento desta capacidade pode ser realizado de várias formas (e.g., meditação) e os seus benefícios são imensos.
Por esta razão mindfulness deixou de significar apenas "estar ciente de algo / being mindful", sendo necessário criar definições mais completas que englobassem os diferentes aspetos desta prática.
Uma das definições mais conhecidas é a de Jon Kabat-Zinn, professor universitário de medicina e uma das pessoas que teve o maior impacto em apresentar mindfulness ao mundo, através do desenvolvimento de um programa de mindfulness de 8 semanas e pelo teste dos seus resultados num processo controlado. Kabat-Zinn define mindfulness como "a consciência que emerge por prestar atenção de uma forma específica: de propósito, no momento presente e sem julgamentos".
Thich Nhat Hanh, um proeminente mestre Zen, definiu mindfulness como "o manter a consciência viva na presente realidade".
Ruth Baer, psicóloga que tem conduzido imensas investigações sobre mindfulness, definiu-o como "a observação sem julgamentos da contínua corrente de estímulos internos e externos conforme eles surgem".
Russ Harris, famoso autor e psicoterapeuta de Terapia de Aceitação e Compromisso, define mindfulness como "prestar atenção com abertura, curiosidade, flexibilidade e gentileza".
Há ainda mais definições, de facto, creio que é impossível chegar a uma definição completa de mindfulness e por isso é que vale a pena conhecer várias, pois todas elas são uma peça que completa o puzzle final.
Mais uma definição, a última, por Dimidjian e Linehan, duas psicólogas de enorme reconhecimento na aplicação clínica de mindfulness, definiram mindfulness de um modo mais extenso e prático, destacando que mindfulness envolve: (1) observar, notar, levar a atenção a algo; (2) reconhecer, rotular, descrever; e (3) participar. Também identificam 3 qualidades com as quais essas atividades devem ser realizadas: (1) sem julgar, com aceitação e permissão; (2) no momento presente, com mente de ver pela primeira vez; e (3) com efetividade.
Resumindo, mindfulness é a capacidade de notar as coisas que surgem momento a momento e de repararmos quando já não o estamos a fazer. E isto é precisamente o que se faz durante a prática de Meditação Mindfulness. Paramos e notamos (ou observamos) o que está presente momento a momento e no instante em que repararmos que já não estávamos a notar as coisas que surgem, reconhecemos o que levou a nossa atenção e redirecionamos-la de volta a notar o que quer que seja que está presente. Tudo isto é realizado com as qualidades acima descritas.
2. Quais são os resultados da prática
O desenvolvimento de Mindfulness está ligado a uma série de benefícios de saúde orgânica e mental. Os efeitos do mindfulness aqui designados são como são praticados nos programas de Mindfulness Based Stress Reduction e Mindfulness Based Cognitive Therapy (ambos os programas enfatizam prática diária de 40 minutos, 6 dias por semana, durante 8 semanas, sendo que os efeitos são mantidos após as 8 semanas), bem como nas intervenções psicológicas de psicoterapia como Terapia de Aceitação e Compromisso e o Protocolo Unificado para o Tratamento Transdiagnóstico das Perturbações Emocionais. Especificamente:
Diminuição de dor em pessoas com Dor Crónica e outros sintomas médicos;
Diminuição de Enxaquecas;
Diminuição de Depressão;
Diminuição de Depressão Crónica;
Diminuição de diferentes tipos de Ansiedade;
Diminuição de Ataques de Pânico;
Melhorias na gestão de Psoríase, quando combinado com fototerapia, em comparação com fototerapia apenas;
Melhorias em pessoas que sofrem de Perturbação de Ingestão Alimentar Compulsiva;
Melhoria na gestão do Stresse em geral.
Há, também, outro tipo de benefícios que se desenvolvem consoante a prática, que são mais difíceis de isolar e medir cientificamente:
Estar mais consciente de tudo (awareness);
Compaixão;
Sabedoria.
3. Tudo o que precisa de saber para iniciar e desenvolver Mindfulness
Praticar é o aspeto mais importante sobre Mindfulness. A partir do momento em que ficamos a conhecer os procedimentos e que sabemos o que esperar e como funciona, tudo o que resta é de facto praticar. Existem diversas práticas de Mindfulness e diferentes professores podem enfatizar diferentes aspetos e, enquanto todas essas práticas têm os seus próprios méritos, as práticas que destaco e quero dar a conhecer são aquelas baseadas em estudos científicos sobre o mindfulness.
Mindfulness faz parte da minha vida pessoal e profissional desde há vários anos. Por isso, escrevi um curto ebook (livro digital) que introduz o(a) leitor(a) a tudo o que precisa de saber sobre Mindfulness, inclusive como mindfulness funciona e as formas de suster uma prática regular.
Neste título ficará a conhecer Mindfulness da perspetiva utilizada em psicoterapia, como o praticar corretamente, os diferentes tipos de práticas, como lidar com obstáculos e dificuldades e como mindfulness funciona para produzir os efeitos que produz.
Até à próxima,
Ricardo Linhares